10€Ostra feliz não faz pérola ou cápsula sobre(a)vivência a | Ana Borges
Ver evento originalFonte: Visit Algarve
A ostra, ao sentir a agressão dos elementos externos, isola-os dentro de si através da segregação de camadas sucessivas de nácar. Não os sacode, não os expulsa, não os repele - faz deles pérolas, numa metáfora singular de transmutação da dor em beleza sublime.
Assim se configura ainda a vivência no feminino, construída a partir das muitas imposições históricas, sociais, culturais, de corpo e de existência. É a capacidade imposta, e tantas vezes silenciosa, de resiliência e superação - como quem aprende a respirar debaixo de água - que passa a desenhar-se como condição que permite permanecer de pé, num mundo que tantas vezes nos chama a encolher. Assim vamos aprendendo a tecer pequenas cápsulas de sobrevivência: lugares internos onde a essência pode finalmente ganhar espaço e voz e colo acontecem, por oposição aos muitos lugares exteriores, que restringem e impedem...
Esta peça nasce da pesquisa sobre as muitas formas que o corpo encontra para existir, quando por vezes parece não haver espaço que o escute, que o veja, que o olhe mesmo... que o sinta.
A vulnerabilidade, despida da romantização constante do excesso de produtividade como forma de elevação, abre espaço à simplicidade, à contemplação como força. E talvez seja nesse lugar, que o feminino pode finalmente encontrar-se e expressar-se: em união, em igualdade e em equidade, sem necessidade de se erguer contra o masculino, mas antes num caminho de mãos dadas, lado a lado, e em nome de um lugar comum - um lugar que acolhe, que dá colo, que permite ser.




